“Madalena...ingênua Madalena...”
- brunoricciadv
- há 1 dia
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(A história e as personagens são totalmente fictícias)
Madalena nasceu no interior de Sergipe. Desde cedo, aprendeu sobre a falta e sobre a ausência.
Na infância, lhe faltaram recursos... o Estado era ausente.
Aos oito anos, foi trabalhar como faxineira na casa do Coronel. Seu pagamento era pão, queijo, leite e um teto de palha.
Aos dezesseis, conheceu Antônio, com quem aos dezoito, se casou. Na esperança de uma vida melhor, se mudou para São Paulo. Não para a cidade grande, mas para Araçoiaba da Serra, interior do estado.
Lá, se estabeleceram em um terreno de “invasão”. Construíram um barraco. Seu marido, Antônio, era pedreiro dos bons. Ali, Madalena pariu e criou seus dois filhos.
A mais velha, Janice, nasceu com paralisia cerebral. O mais novo nasceu com boa saúde.
Disse o médico que Janice dificilmente viveria até os doze. Madalena se recusou a aceitar e, com muita luta e ajuda da comunidade rural, criou com dignidade sua filha, que morreu aos vinte e três.
Talvez, com um bom tratamento, teria vivido até os cinquenta. Quem pode saber? Já que ali não havia hospital, era zona rural, e nas vezes que foi à cidade grande, dormiu na fila com sua filha e, quando muito, voltou para casa com remédios para virose.
Não foi acolhida.
Já o mais novo, José, gozava de boa saúde, mas não era afeto ao trabalho. Usava drogas, gostava de cachaça. Furtava aqui e acolá.
Dava trabalho.
Aos sessenta anos, em razão do vício, Madalena tentou internar José pelo SUS. Ele tinha vinte e cinco.
Tentou uma, duas...perdeu as contas de quantas vezes. Resolveu deixar para lá.
Foi quando Antônio, seu marido, adoeceu e morreu de desgosto. Agora, eram só Madalena e José.
Antônio era o arrimo da família, e José não era chegado ao trabalho. Madalena trabalhava como diarista, mas o dinheiro não dava.
Ela não aguentava mais. José teria que trabalhar!
Quando resolveu lhe cobrar, ele não aceitou. Bêbado e drogado, lhe deu um tapa, um empurrão e ameaçou lhe matar.
Ele foi preso, e ela foi trabalhar.
Um dia teve que ir explicar para o juiz. Foi ao Fórum, foi bem recebida.
Lhe ofereceram água, café. Lhe explicaram um tal de “julgamento sob perspectiva de gênero”. Ela não entendeu bem, achou bonito, mas...são palavras difíceis...sabe-se lá.
Juiz, promotor, serventuários do Fórum...nunca viu tanta gente importante lhe dando tamanha atenção.
Quando foi chamada a falar, contou toda a história do sertão. De Janice. De Antônio. Do folgado e drogado José. Chorou bastante. Falou por duas horas, sem interrupção.
Sentiu-se importante...acolhida...pois ouviu do promotor e do juiz: “sim, você tem razão!”
No final, se esqueceu de contar sobre o tapa, a ameaça e o empurrão.
Ainda assim, o juiz decidiu que José era culpado, e que permaneceria na prisão.
Madalena saiu dali sentindo um peso, e alívio no coração. Nunca havia sido tão bem tratada e acolhida pelo Estado!
“Aqui, a mulher é ouvida e tem sempre razão!”. Assim disse o juiz.
Mas se lembrou que José estaria preso, e que o dinheiro mal daria para o pão. Na porta do Fórum, teve uma ideia.
Já havia ouvido falar sobre um tal de “auxílio reclusão”. Resolveu ir ao INSS explicar sua situação. Para sua surpresa, foi mal atendida. Ali não recebeu acolhida.
Quanto ao auxílio? Recusado, pois José, vagabundo e drogado, não realizou nenhuma contribuição.
Tentou a aposentadoria por idade..., mas foi rejeitada, pois disseram que houve uma mudança na legislação.
Voltou para casa contrariada e confusa..., tentando entender o motivo de tanto acolhimento e satisfação pelo Estado ao pedir a prisão de seu filho, e de tanta rejeição e má vontade ao pleitear uma aposentadoria e auxílio.
Ao chegar em casa, viu uma máquina levando seu barraco para o chão. Infelizmente, o prefeito resolveu desocupar aquele local de invasão...
Desesperada, resolveu ir ter com o juiz e o promotor. Certamente eles resolveriam aquela situação!
Pediu ao serventuário uma audiência com os compreensivos, acolhedores e bondosos servidores da nação.
Não teve água, e nem cafezinho.
Aguardou por três horas, e quando os dois saíram da sala de audiências, explicou ao juiz os motivos de sua desilusão.
O promotor abaixou a cabeça e, sem jeito, apressou o passo e saiu de fininho pelo salão.
O juiz, confuso e sem graça, disse que nada poderia ser feito, mas que pelo menos seu filho estava preso, afinal, como ela disse...ele não toma jeito.
“Solte meu filho, “seu” juiz! Ele é tudo o que me restou!”.
O juiz, indignado, explicou mais uma vez sobre o protocolo de perspectiva de gênero, sobre a escalada da violência contra a mulher, os altos índices de feminicídio e tudo o mais sobre essa questão.
“Mas “seu” juiz, preciso de um teto e preciso de pão!”
“Sinto muito, Madalena, mas essa não é a minha jurisdição...”.
Madalena descobriu, a duras penas, que o tal “acolhimento à mulher” é apenas o discurso da moda para justificativa ao exercício do abuso e excesso de punição.
Madalena...ingênua Madalena...
Bruno Ricci - OAB/SP 370.643
Presidente da Comissão de Segurança Pública da ABRACRIM (ABCDMRR)
Contato: (11) 99416-0221



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